Há um livro que começa numa esplanada de Braga, à espera de alguém que já não vai chegar — e que a partir daí não para de esperar, e de recordar. Desta Alice, de Nelma Moreira, publicado por autografia EDITORIAL em junho de 2026, não é uma novela no sentido tradicional: é uma sucessão de vinte retratos, vinte capítulos dedicados cada um a uma pessoa que passou pela vida da narradora — um amigo de infância, uma avó que atravessa o Atlântico, um ex-paraquedista que sobrevive ao 11 de setembro, uma amiga que se transformou em ameaça, um poeta que já não está entre nós.
O livro abre com um prólogo situado em Gualtar, nos arredores de Braga, onde a narradora espera um encontro que não acontece. A partir daí, cada capítulo funciona como uma carta não enviada: à segunda pessoa do singular, a autora fala diretamente com — ou sobre — cada uma destas figuras, misturando ternura, mágoa, humor e uma lucidez quase clínica sobre os próprios afetos. «O Abílio», «As Anas», «A Filomena», «A Teresa» não são apenas nomes de capítulo: são endereços, invocações, ajustes de contas com o passado.
O Minho — Braga, o café, a Sé, a Avenida Central, o largo da D.ª Branca — funciona como o eixo geográfico e emocional do livro, o lugar ao qual tudo regressa mesmo quando a narrativa viaja até Nova Iorque no dia do 11 de setembro, até ao deserto do Iraque com um amigo veterano, ou até São Paulo com a avó materna. Essa tensão entre o local e o global, entre a memória íntima e a História com maiúscula, é um dos fios condutores mais fortes da obra.
Ela também ultrapassou uma situação parecida com a tua.
Do capítulo «A Teresa» — Desta Alice
Um dos capítulos mais singulares é o dedicado ao poeta Manuel António Pina, construído como uma evocação de um encontro numa feira do livro — conversa sobre poesia, sobre a Foz, sobre gatos — que se transforma numa reflexão sobre a perda e sobre o que fica de quem já partiu. Noutro registo completamente distinto, o capítulo «Maria ou Mary» desliza para o pastiche policial, com uma investigadora chamada Marie a cruzar-se com ecos de Jack, o Estripador, do caso Zodíaco e de Agatha Christie — uma pausa lúdica e inesperada no meio de um livro profundamente pessoal.
Nelma Moreira escreve numa prosa que se aproxima por vezes do poema em prosa, densa de associações livres, memórias entrecruzadas e um endereçamento direto que torna cada capítulo uma confidência. Desta Alice é, no fundo, um livro sobre as pessoas que nos formam — as que amamos, as que nos feriram, as que perdemos — e sobre a forma como todas elas continuam a falar connosco muito depois de terem saído de cena.
Desta Alice está disponível em www.autografia.es. Um livro que se lê como quem folheia um álbum de fotografias e encontra, em cada página, uma pessoa que já não vemos há anos.
Entrevista com Nelma Moreira
Bloco I — O livro e o processo de escrita
Desta Alice está organizado em vinte capítulos, cada um dedicado a uma pessoa diferente. Como nasceu essa estrutura coral?
Nasceu numa altura particularmente difícil da minha vida, que exigiu uma retrospetiva, uma análise e um balanço das pessoas que foram importantes no meu percurso. Como um ninho de conforto e uma busca de força para sobreviver à dor.
O livro abre com um prólogo em Gualtar, à espera de um encontro que não chega. Porquê começar exatamente por aí?
Gualtar foi aquele lugar, o centro de origem da primeira vez que doeu.
Muitos capítulos são escritos na segunda pessoa, como se fossem cartas dirigidas a alguém. Porquê essa escolha de endereçamento direto?
Para dar um cunho mais personalizado, vivo, autêntico e realista à micro-história.
Há quanto tempo trabalhou neste livro? Os capítulos foram escritos pela ordem em que aparecem ou foram depois reorganizados?
Ora bem, talvez, seguramente meio ano. Sim, decerto: houve um trabalho de reorganização por detrás, para lhes dar uma ordem de coerência que nada teve a ver com a ordem temporal em que conheci as pessoas.
O livro mistura memória pessoal, história recente — como o 11 de setembro ou a Guerra do Iraque — e ficção pura, como no capítulo «Maria ou Mary». Como decidiu onde termina a memória e começa a invenção?
Foi esse o efeito que quis impregnar, já que se trata de uma situação temática delicada, de tentativa de «caça» ao assassino. Contudo, existe realmente uma mulher polícia que investiga casos como estes em Inglaterra, que conheço desde que ela era criança e que depois foi estudar e estagiar na polícia inglesa. Imaginei apenas qual seria, ou como seria, o trabalho dela.
O 11 de setembro marcou-me desde a altura em que vi uma fotografia e reconheci um bombeiro conhecido. E real foi a conversa de um amigo que trabalhava nas docas, como segurança, perto das Twin Towers — e a história que se seguiu e que imaginaria. E a simbologia deste acontecimento da história dos Estados Unidos, da perda de milhares de vidas humanas, como numa guerra como a do Iraque.
Bloco II — Personagens e o mundo do livro
Braga e o Minho são uma presença constante ao longo do livro. Que lugar ocupa essa terra na sua escrita?
O Norte de Portugal sempre me fascinou. Vivi ali parte da minha juventude, enquanto fazia o curso, e apaixonei-me pelas pessoas e pelas paisagens.
O capítulo dedicado ao poeta Manuel António Pina tem um tom muito particular. Como surgiu a vontade de o incluir no livro?
Foi uma pessoa de valor e de peso para o meu crescimento enquanto apaixonada pela leitura e pela escrita. Na altura, conheci-o pelos artigos que escrevia no Jornal de Notícias e pelos encontros com a sua poesia, em cafés e clubes literários como o Olimpo, a Âncora de Ouro, o Pinguim, a Casa da Madeira… Nada melhor do que a interação viva com o autor, na esplanada do molhe na Foz e na «tenda com toldo» a lembrar o Oriente. Foi uma pessoa que acreditou, tentou e lutou por mim — pelo que eu escrevia —, mesmo quando ficou internado no hospital.
Capítulos como «A Filomena» ou «A Teresa» têm uma carga emocional muito intensa, quase de ajuste de contas. Foi difícil escrever sobre pessoas tão próximas da sua vida real?
Sim. Sobretudo o da Teresa, que era a minha progenitora. Foi dos capítulos que mais me custaram a escrever. Foram ambas pessoas muito importantes para mim. A Filomena foi uma amiga do peito e deixou de o ser. E a minha mãe era tudo na minha vida. Ambas, perdidas. Emoções que tinha de tornar vivas.
«Maria ou Mary» muda completamente de registo, quase como um conto policial. O que a levou a incluir esse desvio dentro do livro?
Teve que ver com alguma curiosidade privada por temas de polícia. Talvez por ter conhecidos e amigos na polícia. A causa é sempre o amor interrompido.
A avó materna, o Zé do Rio de Janeiro, o Becas — há todo um lado brasileiro e latino-americano no livro. Como se cruzou essa geografia com a do Minho?
O Minho é um ponto multicultural, capital de transeuntes, de peregrinos de passagem ou com morada em todos os continentes do mundo. Braga não foi exceção, e foram pessoas que passaram pelo Minho e regressaram aos seus países de origem. Eram de lá mas conhecia-as cá, ou eram de cá e foram para lá. Como eu — não sou do Minho, mas fui viver para ali.
O Brasil é o país da minha avó materna, e os Estados Unidos pertencem à minha formação académica, para onde foram viver pessoas que conheci no Minho. Quanto a este amigo do Zé, supus que tanto um como os outros existiam e atribuí-lhes uma história de vida. Mas nunca vi, conscientemente, nenhum dos amigos do Zé. Apenas assumi que ele os tinha. E o Zé é brasileiro e muito conhecido em Braga — popular não só ali, sobretudo no universo gastronómico.
Bloco III — Memória, identidade e linguagem
O livro cita diretamente um poema de John Keats, em inglês, dentro de um capítulo. Que papel desempenham essas referências literárias na construção do livro?
Teve de existir um poeta como John Keats: desejo de libertação, fuga e, ao mesmo tempo, busca de união, reencontro de si e cura pela imaginação e pelo sonho. São dois condimentos da luta de sobrevivência.
Quando éramos crianças, buscávamos a felicidade nestes seres imaginários, e o regresso à infância é um estado natural do homem adulto. Da força humana. E quis fazer passar este fio por todos os capítulos, como subtexto, e não apenas no capítulo dedicado ao poeta. Ser como a criança em adulto, por inteiro.
A escrita de Desta Alice é muito associativa, quase como um fluxo de consciência. Foi uma decisão estilística deliberada?
Foi. Procurei criar aquela nuance que saísse da normalidade que se espera de um livro.
Há episódios muito duros no livro — perdas, guerra, dependência, traição. Como decidiu o que contar e o que deixar apenas sugerido?
A realidade deste cenário de guerra que o meu amigo me contou, quando esteve na guerra, foi duas e três vezes pior. Quis poupar o leitor ao horror que ele sentiu no deserto, quando foi apanhado pelas correntes do inimigo.
Bloco IV — A autora e o futuro
O que mudou em si, como escritora e como pessoa, depois de escrever este livro?
O objetivo é sempre viver com paixão, para suprir a dureza da realidade. Fiz a catarse de uma parte do passado doloroso. Foi a realização de um objetivo de vida pessoal: escrever um livro.
Há um capítulo 21 por escrever? Pensa continuar esta galeria de retratos nalgum projeto futuro?
Sim, foi deixada deliberadamente em aberto uma seleção nova de personagens. Como um capítulo em branco, um convite ao leitor.