ENTREVISTA DE RENATO SOBRE “A CASA DAS SOMBRAS LENTAS”

Pergunta 1: Adrião, você teve uma carreira internacional como gestor antes de se dedicar totalmente à escrita. Gostaria de saber como esse pragmatismo do mundo corporativo convive — ou colide — com a criação de um universo tão etéreo, sensorial e misterioso quanto o deste romance.

Resposta: A minha passagem pelo mundo corporativo conferiu‑me uma disciplina que, curiosamente, acabou por se tornar uma aliada da escrita. A gestão ensinou‑me a lidar com estruturas, processos e prioridades; isso ajudou‑me a construir narrativas com rigor, mesmo quando o universo que exploro é subtil, atmosférico e quase indizível. Contudo, é verdade que existe uma tensão: o pragmatismo exige resultados, métricas e decisões rápidas; a literatura, por sua vez, demanda demora, escuta e ambiguidade. No entanto, essa fricção tornou‑se fértil. O lado de gestor proporcionou‑me lucidez e método; o lado escritor devolveu‑me o direito ao mistério, ao silêncio e ao tempo lento. *A Casa das Sombras Lentas* nasce precisamente desse encontro: uma escrita que procura a densidade sensorial e emocional, mas sustentada por uma arquitectura interna altamente consciente. Em suma, não vejo colisão; vejo diálogo. A gestão ensinou‑me a organizar o caos; a literatura, a habitá‑lo.

 

Pergunta 2: Nasceu em Penafiel, reside no Porto e possui formação em História e Património. Dado este percurso, gostaria de saber até que ponto as serras do norte de Portugal, o nosso património de pedra escura e as «casas com memória» serviram de alicerce real para a construção da Serra das Sombras Lentas.

Resposta: Nascido em Penafiel e residente no Porto, cresci envolvido numa certa gramática de pedra e nevoeiro. As serras do Norte, os vales encaixados, os muros de xisto e granito e as casas antigas que parecem olhar para trás — tudo isso constitui o subtexto de *A Casa das Sombras Lentas*. A minha formação em História e Património e Estudos Artísticos ensinou‑me a ler esses lugares não apenas como cenário, mas como camadas de tempo sedimentado. No romance, a casa não é um mero espaço físico; é uma condensação dessa memória mineral e desse património de «casas com memória» que se encontra pelo norte do país. Não copio uma serra ou uma aldeia específica, mas trabalho com sensações muito concretas: a humidade nas paredes, a luz oblíqua que penetra, o ranger do soalho e o peso dos silêncios. O alicerce real está aí — na experiência íntima desses lugares — e é posteriormente transfigurado pela ficção. A casa do livro é, assim, simultaneamente e profundamente nortenha e radicalmente imaginada.

 

Pergunta 3: No livro, a casa não é apenas um cenário; uma vez que altera a sua forma, modifica os corredores e parece ter uma agenda própria, para si ela funciona como uma entidade sobrenatural clássica ou constitui mais uma Resposta: Para mim, a casa não opera como uma entidade sobrenatural clássica. Não se trata de um fantasma com vontade própria, nem de uma força externa que invade a vida de Lourenço. O que ocorre na narrativa é mais subtil e, consequentemente, mais perturbador. A casa altera os seus corredores, muda de forma e abre portas onde antes nada existia — contudo, tais transformações emergem de uma zona de contacto entre o espaço físico e o interior do protagonista. A casa reage ao que ele carrega consigo: às omissões, às memórias que tentou enterrar e aos silêncios que o moldaram. Não se trata meramente de projeção psicológica, dado que a casa exerce uma presença que transcende o indivíduo; tampouco, porém, é um ser autónomo. É, antes, um espelho que reflete aquilo que ele recusa ver, amplificando-o, distorcendo-o e obrigando-o a confrontar tudo o que sempre evitou. A casa é, em última análise, o território onde o passado ganha corpo e onde Lourenço compreende que aquilo que julgava esquecido continua a movimentar-se no seu íntimo. É precisamente essa ambiguidade — entre o real e o íntimo — que lhe confere vida.

 

Pergunta 4: Numa certa altura, o Administrador afirma que a validade jurídica é um «conceito flexível». Sendo historiador, gostaria de saber se pretendeu brincar com a ideia de que a burocracia humana é completamente ridícula e impotente face às forças antigas do tempo e da memória.

Resposta 4: Sim, trata-se de uma brincadeira deliberada, mas séria. A minha formação em História ensinou‑me que a burocracia constitui uma das grandes ilusões humanas: acredito que, através de carimbos, regulamentos e organigramas, conseguimos domesticar o mundo. No entanto, ao adentrarmos territórios marcados por forças ancestrais — como o tempo, a memória e o trauma —, constatamos que esses mecanismos são frágeis, quase cómicos. No romance, o Administrador personifica precisamente essa impotência. Quando este afirma que a «validade jurídica» é um conceito flexível, está a tentar aplicar uma grelha racional a algo que não admite ser racionalizado. A casa, com as suas mutações e silêncios, opera numa lógica que escapa ao direito, à administração e à ordem humana. O objetivo não foi ridicularizar a burocracia apenas por ridicularizar; pretendia‑se evidenciar os seus limites. Numa certa fase, a linguagem administrativa torna‑se insuficiente, quase absurda, perante um espaço que responde mais ao passado do que às normas. É nesse desfasamento que reside a ironia — e também a verdade histórica: existem forças que nenhum decreto consegue conter.

 

Pergunta 5: O detalhe dos livros com páginas em branco na biblioteca da casa é fascinante e leva-nos a refletir se isto constituía uma pista precoce para o leitor de que Lourenço não iria apenas ler uma história, mas sim ser «escrito» por aquele lugar.

Resposta 5: Os livros de páginas em branco surgem cedo no romance, pois desejava-se que o leitor percebesse, ainda sem o saber, que aquela biblioteca não guarda apenas histórias: ela fabrica-as. A casa não oferece a Lourenço um passado para consultar; oferece-lhe, antes, um espaço onde aquilo que ainda não foi dito pode começar a ganhar forma. As páginas vazias funcionam como um aviso silencioso de que ele não é apenas o leitor daquele lugar, mas sim matéria narrativa. Não representam ausência, mas potencial: aquilo que a casa está prestes a escrever, aquilo que ele ainda não consegue admitir e aquilo que o tempo ainda não resolveu. Quando Lourenço se confronta com esses livros, compreende que a casa o lê com a mesma intensidade com que ele tenta lê-la. Por isso, constituem, de facto, uma pista precoce — não no sentido de um enigma a decifrar, mas como um gesto subtil da própria casa, quase um sussurro: «A tua história ainda não está escrita, e não serás tu o único a escrevê-la». É neste ponto que o leitor intui que o destino do protagonista está intimamente ligado ao próprio ato de ser inscrito naquele espaço.

 

Pergunta 6: A dedicatória do livro é linda e intrigante ao dirigir-se a «aqueles que aprenderam a caminhar no escuro antes de saber acender uma vela». O que me leva a perguntar-te quem são estas pessoas na tua vida e como essa premissa moldou a jornada do protagonista.

Resposta 6: A dedicatória surge de pessoas muito concretas da minha vida: aquelas que, por circunstâncias familiares, sociais ou emocionais, tiveram de crescer antes do tempo. São indivíduos que aprenderam a orientar-se no escuro — na ausência de respostas, de amparo e de explicações — muito antes de saber «acender uma vela», isto é, antes de possuir ferramentas para compreender o que lhes acontecia. Trata-se de familiares, amigos e figuras discretas que me marcaram pela sua resistência silenciosa. Essa premissa molda profundamente a jornada de Lourenço. Ele é alguém que também caminhou no escuro: cresceu entre omissões, zonas de sombra e memórias que ninguém nomeou. Ao entrar na casa, não está a adentrar um espaço desconhecido; está a ingressar na arquitetura íntima desse escuro que sempre o acompanhou. A casa obriga-o a revisitar aquilo que nunca teve luz suficiente para entender. A dedicatória é, portanto, uma chave de leitura: o romance aborda quem sobreviveu antes de compreender e como, um dia, a luz chega, mas sempre após atravessar a sombra.

Pergunta 7: O relógio parado na parede e no bolso marca obsessivamente as 03h17 e depois as 03h24, por isso gostava que nos contasses se há algum significado pessoal, histórico ou puramente simbólico escondido por trás da escolha destes minutos específicos.

Resposta 7: A escolha das horas não é arbitrária, nem constitui um código secreto. O que me interessava era a sensação de suspensão: aqueles minutos que parecem não pertencer a lugar nenhum, em que o tempo está acordado, mas o mundo ainda não. As 03h17 e as 03h24 são momentos em que a noite já não é absoluta, mas o dia ainda está longe — uma espécie de fenda temporal onde tudo pode acontecer. Há também uma dimensão simbólica: são horas sem significado social, que não marcam rotinas e não pertencem ao relógio humano; pertencem ao relógio interior. Para o Lourenço, esses minutos funcionam como pontos de retorno, como se o tempo estivesse preso num ciclo que ele ainda não compreende. Embora não tenham um significado pessoal ou biográfico para mim, possuem um significado emocional: representam o instante em que a consciência desperta para algo que deseja evitar. No romance, essas horas sinalizam que o tempo deixou de ser linear para se tornar um espelho — e o Lourenço está prestes a ver aquilo que sempre evitou.

 

Pergunta 8: Tu exploras profundamente a ideia de que o tempo não é uma linha reta, mas sim um labirinto ou uma sala, e se tu próprio pudesses ficar preso num «intervalo» temporal da tua vida, tal como acontece na narrativa, que momento escolherias?

Resposta 8: Se pudesse escolher um “intervalo” da minha vida para permanecer suspenso, não seria um grande acontecimento, mas sim um instante muito pequeno — desses que passam sem fazer ruído e, no entanto, ficam para sempre. Talvez uma tarde de verão na infância, quando o tempo parecia expandir-se e não havia nenhuma urgência; ou um daqueles momentos em que percebemos, sem palavras, que estamos exatamente onde deveríamos estar. O que me fascina nesses intervalos é que eles não são extraordinários: são simples, mas carregados de uma espécie de verdade íntima. No romance, o tempo funciona como sala, como dobra, como eco — e eu próprio sinto que esses instantes da vida possuem essa qualidade de espaço habitável. Não escolheria um momento de glória ou de virada; escolheria um instante de quietude, em que o mundo parecia suspenso e eu ainda não sabia que o tempo ia acelerar. Talvez seja isso que o livro pretende transmitir: que os intervalos mais importantes não são aqueles que mudam a vida, mas sim os que a revelam.

 

Pergunta 9: Os habitantes da aldeia agem de forma coordenada, quase como peças de um tabuleiro operadas pela casa, e gostava de saber como foi o processo de construir personagens tão enigmáticos como o Administrador, a Arquivista e a Mulher da Fonte, que parecem saber tudo mas só falam por charadas.

Resposta 9: Criar o Administrador, a Arquivista e a Mulher da Fonte foi um exercício de escrita a partir do silêncio. No romance, eles não funcionam como indivíduos autónomos, mas como extensões da própria casa — quase órgãos de um organismo maior. Por isso falam por charadas: não porque queiram ser obscuros, mas porque a linguagem humana é insuficiente para traduzir aquilo que pressentem. O processo começou sempre pela função: o Administrador como guardião de regras que já não servem, a Arquivista como memória do que nunca chegou a existir, a Mulher da Fonte como ponte entre o visível e o subterrâneo. Depois, dei‑lhes voz — uma voz enviesada, como se cada frase tivesse passado por um filtro que impede a verdade de surgir inteira. A coordenação entre os habitantes da aldeia não é consciente; é instintiva, quase herdada. Eles movem‑se como peças de um tabuleiro porque a casa os moldou ao longo de gerações. Escrever estas figuras foi como escrever sombras: têm forma, mas a substância está sempre um pouco fora de alcance. É essa ambiguidade que lhes dá vida — e que mantém o leitor inquieto.

 

Pergunta 10: Na segunda metade do livro, o mistério ganha contornos mais densos com a revelação do «Substituto» e da fenda interior, e por isso pergunto-te como te surgiu este conceito de que o maior perigo para o ser

humano não é morrer, mas sim ser «continuado» e substituído na própria identidade.

Resposta 10: A ideia do Substituto surgiu quando percebi que o verdadeiro terror não reside na morte, mas na possibilidade de sermos substituídos sem que sejamos nós mesmos. A morte constitui um fim; a substituição, uma continuidade deformada. Sempre me fascinou a fragilidade do «eu»: basta uma fissura — uma perda, um trauma ou uma revelação tardia — para que a identidade se desloque. No romance, essa fenda interior representa precisamente o ponto de vulnerabilidade onde algo pode infiltrar-se e reorganizar aquilo que julgávamos sólido. O Substituto nasce dessa inquietação: a de que existem forças, internas ou externas, capazes de ocupar o nosso lugar sem que o mundo perceba qualquer diferença. Não se trata de um monstro clássico, mas de uma possibilidade; uma metáfora para o medo de perder a autoria sobre si mesmo. Na segunda metade da obra, quando Lourenço percebe que o perigo não é desaparecer, mas ser reescrito, o mistério adquire maior densidade emocional. O Substituto é, em última análise, a personificação desse pavor íntimo: o de que o pior destino humano não é morrer, mas sobreviver como alguém que já deixámos de ser.

 

Pergunta 11: O aparecimento do nome «Aderim» funciona como uma quebra na amnésia coletiva da aldeia e gostava de saber se, na tua mente de historiador, o pior castigo ou apagamento que se pode infligir a alguém é ter o seu nome e a sua história completamente eliminada da existência.

Resposta 11: Sim — para mim, enquanto historiador, o apagamento de um nome constitui uma das formas mais extremas de violência simbólica. A História demonstra-nos isso inúmeras vezes: quando um poder deseja destruir verdadeiramente alguém, não se limita a matá-lo; apaga-o. Subtrai-lhe o nome, a voz e a inscrição no tempo. Trata-se de uma morte que continua a ocorrer. No romance, o surgimento do nome «Aderim» representa uma falha nessa operação de esquecimento coletivo. É o momento em que algo que deveria ter sido soterrado regressa, com força suficiente para abalar a ordem da aldeia. O nome é simultaneamente uma chave e uma ferida: revela que houve alguém, que houve uma história, que houve uma perda que não foi totalmente consumada. Para mim, o pior castigo não é desaparecer, mas ser apagado. A morte encerra; o apagamento anula. E é essa anulação que a aldeia tenta perpetuar, como se o mero acto de não pronunciar um nome pudesse proteger todos de uma verdade demasiado pesada. Recuperar um nome é recuperar um mundo; perder um nome é perder tudo.

 

Pergunta 12: A tua escrita tem uma precisão linguística e uma densidade emocional muito fortes e, sendo tu também poeta, gostava de saber se sentes que a poesia te ajuda a polir a prosa para que ela soe tão melancólica e musical, mesmo quando narras momentos de puro suspense.

Resposta 12:  A poesia ensinou-me a ouvir antes de escrever, e essa escuta acompanha-me sempre, mesmo quando a narrativa exige tensão ou movimento. O trabalho poético obriga-me a escolher cada palavra como se fosse definitiva, a medir o ritmo interno de cada frase e a perceber o que pode ser sugerido sem ser dito. Essa disciplina — ou talvez essa delicadeza — infiltra-se naturalmente na prosa. A melancolia e a musicalidade não são efeitos que procuro conscientemente; são consequências dessa atenção ao silêncio, à respiração e ao peso emocional das imagens. Mesmo nas cenas de maior suspense, procuro que a linguagem não perca essa vibração íntima, quase subterrânea, que a poesia me ensinou a reconhecer. A poesia confere-me precisão, mas também profundidade: permite trabalhar a ambiguidade, a sombra e o intervalo. No fundo, a prosa de *A Casa das Sombras Lentas* respira como um poema longo — com a mesma cadência lenta, a mesma busca por densidade e a mesma vontade de transformar o indizível em matéria sensorial.

 

Pergunta 13: Como é que geres o ritmo da narrativa para manter o leitor tenso, considerando que o terror e o mistério em A Casa das Sombras Lentas não vêm de sustos fáceis, mas sim de uma sensação constante de estranheza e de opressão psicológica?

Resposta 13: O ritmo do romance nasce menos da ação e mais da respiração — uma respiração irregular, quase orgânica, que se aproxima e se afasta como se a própria casa ditasse o compasso. Para manter o leitor tenso, trabalho sobretudo com a suspensão: aquilo que não acontece, aquilo que demora a revelar‑se, aquilo que parece estar prestes a surgir, mas recua no último instante. A estranheza instala‑se nos detalhes — uma porta que não devia estar ali, um silêncio que dura demasiado, uma frase que chega tarde demais — e é essa acumulação de pequenas dissonâncias que cria a opressão psicológica. Evito o susto fácil porque ele resolve; e o que me interessa é o irresoluto. O ritmo é construído como um corredor que se estreita: o leitor sente que está a avançar, mas também que está a perder espaço. A poesia ajuda‑me a controlar a cadência das frases, a dar peso às pausas, a transformar o tempo narrativo num espelho do tempo interior do Lourenço. No fundo, o suspense nasce dessa convivência entre lentidão e ameaça — uma lentidão que não acalma, mas inquieta. É assim que a tensão se mantém viva, mesmo quando quase nada acontece.

 

Pergunta 14: À medida que a história avança, o Lourenço percebe que a continuidade exige uma tomada de posição drástica face ao que a casa impõe e, sem revelar o desfecho, gostava de saber se para ti ele representa a impotência humana perante o inevitável ou a nossa capacidade minúscula de resistência.

Resposta 14:  Vejo o Lourenço como alguém que vive exatamente nesse ponto de fricção onde a impotência e a resistência se tocam. A casa impõe‑lhe uma lógica que parece inevitável, quase ancestral, mas é precisamente nesse confronto que ele descobre a sua margem de ação — mínima, frágil, mas real. A ideia de inevitável é sempre perigosa: sugere que nada do que fazemos importa. Mas o romance trabalha outra noção, mais humana e mais inquietante — a de que, mesmo quando quase tudo nos ultrapassa, existe sempre um gesto que ainda nos pertence. O Lourenço não é um herói que vence o impossível, nem uma vítima que se entrega ao destino. Ele é alguém que percebe que a resistência pode não mudar o mundo, mas pode impedir que o mundo o apague. A casa representa o peso das forças que moldam a nossa vida; o gesto dele representa a pequena fissura onde ainda cabe liberdade. Por isso, para mim, ele encarna as duas coisas ao mesmo tempo: a consciência da nossa vulnerabilidade e a teimosia de não desaparecer completamente dentro do inevitável. É nesse intervalo — estreito, mas decisivo — que reside a sua humanidade.

 

Pergunta 15: O posfácio deixa explícito que o Livro I termina ali, o que nos deixa em suspense, por isso gostava de saber o que nos podes já adiantar sobre o Livro II e se o mistério da Serra das Sombras Lentas se vai expandir para além dos limites que conhecemos neste volume.

Resposta 15:  O Livro II começa exatamente onde o primeiro termina: naquele ponto em que o Lourenço percebe que a casa não é apenas um lugar, mas uma força que se prolonga para lá das suas paredes. Se o Livro I é a descoberta — lenta, inquieta, quase hipnótica — do território da casa e das suas regras, o segundo volume será a confrontação com aquilo que essas regras exigem. O mistério não só se expande como se adensa. A Casa das Sombras Lentas tem raízes mais profundas do que o leitor imagina, e algumas dessas raízes estendem‑se para além da aldeia, para além do visível, para além do que o Lourenço julgava possível. Mas não será uma expansão “horizontal”, de mais lugares ou mais personagens; será uma expansão “vertical”, para dentro: para o subterrâneo, para o não‑dito, para a origem da própria casa. O Livro II vai explorar as consequências do que ficou suspenso no final do primeiro volume e o papel que o Lourenço terá de assumir — ou recusar. O que posso garantir é isto: a casa ainda não mostrou tudo. E o que falta ver é mais antigo, mais íntimo e mais perturbador do que aquilo que o Lourenço está preparado para enfrentar.

 

Pergunta 16: Para fechar a nossa conversa: se a Casa das Sombras Lentas te chamasse hoje através de uma carta misteriosa e sem remetente no teu correio, tu irias como o Lourenço ou deitavas o envelope diretamente ao lixo?

Resposta 16:  A verdade é que nenhuma carta misteriosa chega realmente sozinha. Quando a abrimos, já há qualquer coisa em nós que a esperava. Se recebesse hoje um envelope sem remetente, com aquele silêncio pesado que reconhecemos antes de o tocar, não sei se teria a coragem de o deitar fora. Talvez hesitasse — como qualquer pessoa sensata — mas a hesitação é, muitas vezes, a primeira forma de aceitação.

Não iria por impulso, nem por curiosidade fácil. Iria porque há chamadas que não se recusam sem perder algo de nós. A Casa das Sombras Lentas representa precisamente isso: a possibilidade de que o desconhecido nos conheça melhor do que nós próprios. E, por mais assustador que seja, há uma parte de mim que sempre quis compreender o que me observa a partir das sombras.

Por isso, acho que acabaria por ir. Não como o Lourenço — que vai porque não sabe que está a ser chamado — mas como alguém que reconhece o risco e, ainda assim, decide atravessá‑lo. Não por bravura, mas por fidelidade a uma inquietação antiga.

No fundo, ninguém escreve um livro como este sem saber que, se a casa chamasse, a porta já estaria meio aberta.

 

 

Sostener sin dejar de ser: la novela que habla de lo que nadie nombra

2 julio, 2026