O Encontro: quando a alma portuguesa regressa às pedras que a formaram

O Encontro: quando a alma portuguesa regressa às pedras que a formaram

Há romances que são histórias. E há romances que são acertos de contas com o passado, escritos com o rigor do granito e a transparência do cristal.

O Encontro, de Joaquim Ricardo, começa com um homem farto. Farto da “algazarra oca da capital”, da burocracia que consumiu quarenta anos de vida, dos colóquios fúteis e das liberdades que pesam como sentenças. Jacinto — funcionário reformado, beirão de sangue, homem de nariz arábico e dignidade intacta — faz a sua mala de cabedal e parte rumo às Beiras, em busca das raízes que Lisboa lhe foi devorando devagar, sem barulho, com a implacabilidade das coisas inevitáveis.

Mas as serranias guardam ecos que o tempo não conseguiu petrificar. Numa pensão de província, entre o calor dos cavacos negrais e a cumplicidade de uns brandies partilhados junto à lareira, o destino coloca-o frente a frente com um homem desfeito: um estranho que carrega nos ombros uma tragedia tão portuguesa quanto o granito das serras — uma noiva perdida, um exilio amargo em Goa, a traição irremediável do melhor amigo e o escândalo de um funeral sem corpo.

“Nascido do silêncio das serranias e da memória das pedras, este romance mergulha nas profundezas da alma portuguesa. Entre o Porto da traição e a Goa do exílio, o autor tece uma teia onde a honra é uma moeda gasta e a amizade um veneno lento.”

O que Joaquim Ricardo constrói em “O Encontro” é uma narrativa de uma linguagem densa e deliberada, que convoca, a cada página, os fantasmas do grande romance português do século XIX. Há aqui uma herança que o leitor reconhece e saboreia: a ironia cirúrgica, o retrato impiedoso da mediocridade burguesa, a Maura traída que enfrenta o Sousa jogador e infiel com a frieza de uma lâmina de Toledo, as personagens que têm sempre um tipo além do nome. Há Eça nestas páginas, sim — mas há também uma voz própria, forjada no rigor da escrita profissional e temperada pelo amor à terra.

No centro de tudo, o Conde: anfitrião de uma benevolência sombria e calculada, senhor de uma mansão medieval onde a ficção e a história se fundem num relato torrencial. A sua presença introduz na narrativa uma dimensão quase gótica que eleva o romance para além da sátira social, transformando-o numa reflexão sobre a honra, a memória e o que significa ser português numa terra que ainda guarda, nas pedras, a memória de quem as pisou.

Joaquim Ricardo, licenciado em Contabilidade e Administração de Empresas e autor de diversas obras técnicas, encontrou no rigor da escrita profissional o alicerce para uma narrativa literária cuidada e erudita. O Encontro é a prova de que a grande literatura portuguesa não é um território reservado a académicos — é um direito de quem tem a linguagem, a memória e algo a dizer.

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O Encontro está disponível através da Editorial Autografia.

 

 

15 Perguntas para o Autor

Conversa com Joaquim Ricardo

Uma entrevista com o autor sobre o processo criativo, as influências literárias, as personagens e o que significa escrever um romance de linguagem tão trabalhada.

P1. O Encontro começa com Jacinto farto da capital, em busca das raízes nas Beiras. Essa insatisfação com Lisboa e esse apelo da terra são autobiográficos ou são exclusivamente de Jacinto?

A ficção é um composto de realidades e sonhos, mas também contém a temperá-la algo de pessoal onde o ator principal é o seu autor.

P2. A linguagem do romance tem uma densidade e uma ironia que convocam o grande romance português do século XIX. Foi uma escolha consciente? Que autores o habitam quando escreve?

Foi uma escolha deliberada e profundamente sentida. Sou um devorador insaciável da literatura oitocentista e, ao escrever “O Encontro”, quis resgatar a cadência, a ironia fina e a riqueza descritiva que imortalizaram essa época. Quando escrevo, sou inevitavelmente habitado pela ironia social de Eça de Queiroz, pelo fulgor dramático de Camilo Castelo Branco e pela precisão psicológica de Júlio Dinis. Este romance é o meu modesto tributo a esse estilo monumental: uma tentativa de provar que a grande linguagem clássica continua viva e perfeitamente capaz de dialogar com os leitores de hoje.

P3. Jacinto é uma personagem construída com muito pormenor: o nariz arábico, o fato de linho, o chapéu de feltro, a dignidade irredutível. Como nasceu esta figura?

O Jacinto nasceu da minha própria observação e memória. Durante a minha carreira ativa na administração pública, convivi de perto com uma geração de funcionários do Estado que via no asseio e na postura uma extensão da própria dignidade institucional. O fato de linho e o chapéu de feltro não são meros adereços; são a farda de homens que se sabiam representantes de algo maior. Moldei o Jacinto cruzando essa solenidade profissional com os traços marcantes e a rigidez moral que tantas vezes encontrei nas gentes da Beira. Ele é o retrato de um Portugal que recusava vergar-se ao desleixo.

P4. A cena do Jardim da Estrela com o Pacheco é um dos momentos mais lancinantes do livro — o espelho do futuro que Jacinto recusa. É uma cena sobre a reforma, sobre a morte ou sobre algo mais?

A cena do Jardim da Estrela, infelizmente, é a passagem de muitos daqueles que são dispensados da vida ativa e esquecidos para o resto da sua vida. Jacinto não aceita essa imagem. Revolta-se e ruma às Beiras onde não é mais o senhor Jacinto da repartição tal, mas sim o senhor Jacinto que é o fundador de instituições para os mais idosos e jovens. Rejeita aquele cenário apocalíptico da vida. Transforma-se num lutador de outras causas, quiçá superiores àquelas a que se dedicou toda a sua vida.

P5. Maura é uma personagem de uma modernidade surpreendente para a época que o romance evoca. A cena em que enfrenta o Sousa na pensão é de uma frieza devastadora. Teve dificuldade em escrevê-la?

Escrever essa cena foi um enorme desafio psicológico. É difícil despir uma personagem do século XX — uma mulher de formação burguesa, condicionada por uma sociedade patriarcal e sem acesso ao ensino superior — e dotá-la de uma coragem tão cirúrgica. A minha grande dificuldade foi encontrar o equilíbrio: a Maura precisava de ferir o Sousa não com a força física, mas com a lucidez fria das palavras. Foi um parto doloroso, mas necessário, para dar um safanão na submissão feminina da época e mostrar o nascimento de uma mulher que prefere a rutura do divórcio à mentira de um casamento de aparências.

P6. O Sousa é um retrato da mediocridade burguesa de uma precisão quase entomológica. Houve algum modelo real, ou nasceu inteiramente da imaginação?

O Sousa era o retrato dos caça fortunas. Não tinham dotes para o trabalho antes para o engate fortuito na mira de uma vida fácil. Eram os chamados “Gigolôs”, ou “Cortejadores de herdeiras”, que usam o charme e a sedução para conquistar a mulher. Na época tal como atualmente, ainda se descobrem aqui e ali estas personagens.

P7. A História — Goa, os fuzilamentos, o Portugal do Estado Novo — funde-se com a ficção de forma muito orgânica. Como equilibrou o rigor histórico com a liberdade da narrativa?

Estamos na década de sessenta do século passado, mais precisamente no ano de 1961. Este ano põe fim a mais de 451 anos de domínio português em território da Índia, que se iniciou com a invasão de Goa. O processo invasivo foi marcante para muitos militares portugueses. O equilíbrio entre o rigor histórico com a liberdade da narrativa tem a ver com o recurso à memória pessoal que esteve presente naquela época, pois havia lá familiares que foram testemunhos reais do massacre.

P8. O Conde é uma figura de uma ambiguidade fascinante: benevolente e sombrio, acolhedor e perturbador. O que representa no romance?

O Conde é o personagem que representa no romance, a herança dos séculos do feudalismo que permaneceram no país e que ultrapassaram o rigor da sua extinção e perduraram por muitos longos anos.

P9. O subtítulo do livro é «O triunfo final sobre o silêncio». Que silêncio é esse? O da memória, o da traição, o de uma vida inteira vivida sem ser contada?

O portador deste silêncio é também o principal protagonista do romance. Depois de ter estado na linha da frente do fuzilamento e do despejo humilhante no Terreiro do Paço é confrontado com a traição amorosa. Por todo esse passado, tão cruel, confronta-se com a vergonha de ter sido ele o visado. Deambula pelo território e encontra no amigo Jacinto, um ouvido amigo que o escuta, com a benevolência do álcool que lhe facilita o diálogo e o faz esquecer da sua fraqueza.

P10. A pensão de província como lugar de encontro e de confissão é um espaço muito português. Porque escolheu esse cenário para o momento central da narrativa?

A escolha daquele local foi de cariz pessoal. Eu conhecia-o pessoalmente e muitas foram as vezes em que presenciei momentos idênticos, onde a força das palavras tem o contributo do álcool. Achei que o local era o ideal para as marras serem desfeitas.

P11. Escreveu antes obras técnicas. A passagem para a ficção literária foi uma rutura ou uma continuidade? O que trouxe da disciplina profissional para a escrita do romance?

Como já disse antes, eu sempre fui um consumidor assíduo de literatura. Qualquer escrita obedece a uma organização de textos, seja ela profissional ou literária. O que me levou para a escrita ficcional foi o de querer criar uma rutura com o mesmo passado profissional, inventando uma nova etapa de criação para que os meus dias sejam o que eu quero que eles sejam. Ou talvez ainda ou também porque na ficção podemos voar sem sermos surpreendidos com imprecisões legais.

P12. Há uma Portugal feminino no livro — Maura, a D. Augusta, a Eulalia — e um Portugal masculino — Jacinto, o Sousa, o Pacheco, o Conde. Os dois estão em conflito, ou em diálogo?

A época em que se desenvolve o romance é ainda uma época predominantemente dominada pelo lado masculino. A título de exemplo, até 1974, a lei previa que as mulheres casadas precisavam de autorização do marido para viajar, para abrir contas bancárias ou até trabalhar fora de casa. Nesse período o conflito entre os dois lados dava os seus primeiros passos. Com a personagem Moura eu quis dar um safanão aquela dependência perante o masculino, com um divórcio com o Sousa, proibido naquela época para os casamentos católicos, só autorizado para quem casava pelo registo civil, implicitamente, sendo o caso, mas em circunstância alguma ser referido.

P13. O romance é descrito na capa como «um acerto de contas com o passado». Acerto de contas de quem com quem? De Jacinto com a sua vida, de Portugal consigo próprio, ou do autor com algo mais pessoal?

O Raul, que nunca tinha contado o seu passado a ninguém, precisou deste momento para o fazer. O acerto de contas é uma forma de contar o passado que nunca é referido para ninguém. Raul sentiu-se aliviado com a passagem deste testemunho para os ouvidos de Jacinto. O acerto de contas é, assim, no sentido ficcional ou literário.

P14. Para que leitor escreveu este livro? Que leituras o leitor deve trazer para poder apreciar plenamente O Encontro?

Escrevi este livro para o leitor que gosta de se demorar nas palavras e que procura na ficção uma ponte para a memória coletiva. Não exijo nenhuma erudição académica, mas quem trouxer consigo a bagagem dos nossos clássicos decerto saboreará melhor a ironia da narrativa. Mais do que leituras prévias, peço ao leitor que traga empatia. É preciso sensibilidade para compreender a dor de Maura na traição, a revolta de Raul ao ser esquecido pelo Estado que defendeu em Goa, e o luto de Jacinto ao ser descartado pelo estado. É um livro para quem acredita que a literatura serve para resgatar os vencidos da História.

P15. Há um próximo romance? As Beiras, Jacinto, ou alguma das outras personagens têm mais história para contar?

Haverá novidades muito em breve. Estou a finalizar um outro romance, cujo enredo volta a mergulhar nas Beiras, mas desta vez para desenterrar um segredo de família guardado durante gerações. O Jacinto e o Raul cumpriram o seu papel em “O Encontro” e conquistaram a sua paz contra o silêncio. Agora, sinto a urgência de dar voz a novas personagens que batem à porta da minha imaginação. Só posso adiantar uma coisa: o passado ainda tem muitas contas antigas para acertar e o próximo livro será o palco desse acerto de contas definitivo.

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