OBRA EM FOCO: AS DEZ ELEGIAS QUE ACABAM A POESIA

Emil Cioran chamou-lhe «um cúmplice no culto do Nada». Constantin Noica colocou-o à frente dos vinte e dois jovens mais brilhantes da sua geração. Filólogo de ofício, leitor de Heidegger e de Nagarjuna, tradutor e decifrador de Eminescu ao longo de mais de trinta e cinco anos, Barbu escreve agora As Dez Elegias que Acabam a Poesia: um livro atravessado de ponta a ponta pela perda de Ângela e pela suspeita de que a própria linguagem em que morremos ritualmente tem de ser desmantelada. Falámos com ele sobre o vazio, a escala cosmológica da sua obra, a rosa que permanece intocada e o silêncio que espera encontrar em quem o ler.


Bloco I — Filosofia, tradição romena e o culto do Nada

O seu percurso filosófico foi acompanhado por figuras de proa do pensamento europeu e romeno. Emil Cioran definiu-o outrora como «um cúmplice no culto do Nada». De que forma a presença ontológica do «vazio» e do «nada» nesta obra dialoga com a sua formação e com essa herança intelectual romena?

Estudei Eminescu toda a minha vida. Era estudante quando publiquei um ensaio sobre Eminescu, com o título Luceafărul e o Bhagavad-Gita (em 1977). O ensaio, que entrou na bibliografia universitária, atraiu a atenção do filósofo Constantin Noica.

Tendo uma bolsa do governo francês (em 1977), comprei livros de budismo mahayana, gramáticas de sânscrito e 79 obras de Heidegger. Depois, no leitorado francês, encontrei centenas de livros fenomenais. Sabia Heidegger e Nagarjuna de cor.

Estudei a fundo todos os grandes budistas do Grande Veículo — Chandrakirti, Vasubandhu, Asanga, Asvaghosa…

Como hei-de dizer: eu vivia a vacuidade dentro de mim, e os mahayanistas tornaram-me «erudito». Eu penso e escrevo a partir do tremor, se me é permitida a expressão…

Emil Cioran chamou-me, no seu estilo memorável, «um cúmplice no culto do Nada», ao folhear em 1989 o meu livro Héstia. Ensaio para decifrar a imagem do mundo (publicado sob o título Ensaio sobre os fundamentos da língua romena). Aí leu o capítulo A Inexaurível preposição, onde eu escrevia sobre o seu Sans (a propósito do Lessness de Beckett). Eu via Sans como s-ens e Lessness como descendente do verbo lyo-. Uma árvore metafísica genial.

O livro foi conhecido também por Derrida (que escreveu um livro inteiro, Donner le temps, seguindo a bibliografia do meu livro, que deveria ter-se tornado um doutoramento orientado por ele) e, por recomendação de Lévinas — encantado com as interpretações sobre o tema epekeina tes ousias —, chegou a mim.

O vazio era vivido como śūnya. O nada era o Nichts alemão. Conhecia o niilismo europeu a partir dos volumes do Nietzsche de Heidegger. Um livro terrível! Portanto, tenho toda a niilação.

Como autor de poesia, sou devedor de Dante, de Rilke e de Eminescu. E de Angelus Silesius, em quem a rosa floresce sem porquê: Die Ros’ ist ohn warumb / sie blühet weil sie blühet…

O filósofo Constantin Noica colocou-o entre os mais brilhantes intelectuais da sua geração, destacando a sua vocação para a reflexão profunda e a erudição. Como é que a sua sólida bagagem em metafísica e filologia molda a estrutura poética destas Dez Elegias?

Noica deu-me «ordem» para identificar os textos alemães em Eminescu. E, juntamente com a Ângela, identificámo-los. Depois trabalhei mais 35 anos e terminei-os. São 100 volumes, dos quais publiquei os primeiros 30. Realizei uma conferência na Academia Alemã: Quem é Eminescu para a Alemanha?

Foi por isso que Noica escreveu a frase de que C. B. é «excecionalmente dotado para trabalhos de erudição e história literária». E foi por isso que me colocou à frente dos «22» jovens geniais da Roménia.

No livro, faz uso do conceito sociológico e fenomenológico de niilação (a negação de realidades que não se ajustam ao universo simbólico estabelecido). De que modo a poesia atua como agente de niilação perante o esgotamento do mundo contemporâneo?

A dor da perda da Ângela não tem bibliografia, por mais genial que seja. Quando se perde a razão de tanta dor, já não há sintaxe. A arte combinatória é anarquia. A dor leva-te a uma levitação acausal. Os mestres zen sabiam alguma coisa disso.

Bloco II — A morte da poesia e o fim da escrita

O título do livro traz uma premissa contundente: As Dez Elegias que Acabam a Poesia. Considera que estas elegias assinalam um encerramento definitivo da linguagem poética ou trata-se do nascimento de uma «anti-poesia» que habita o vácuo?

As dez elegias que acabam a poesia são um desastre, uma des-estelação. A estrela é uma travessia. Rosenzweig sabia o que escrevia. Ele vivera a estrela da libertação. A estrela é tara (como diz o sânscrito), é uma entidade mental antes de ter origem. Or-igo, ar-che. Antes de ar-, porque em -che há queda de tempo.

«Fim» em romeno tem vários sentidos. Entre os quais o de esgotar, terminar, pôr termo. Pôr termo é uma libertação na morte.

Se acabei a poesia com as Elegias, significa que a poesia pode começar de novo.

Na Quinta elegia, escreve sobre «o poema que acaba a escrita» e indaga a utilidade de alinhar linhas pretas no papel. Como se equilibra a necessidade de continuar a escrever com a consciência da impossibilidade ou ineficácia da própria palavra?

É uma questão difícil no sentido máximo. Sobre esta complicação escrevi uma conferência (no Fórum Poético Internacional, Bucareste, 9-20 de agosto) intitulada: Será que o planeta precisa de um novo projeto de existência?

Escrevi durante algumas décadas um livro: O Superlivro sem porquê. E precisamente esse é o enigma: mostrar que todo o pensamento histórico (em indo-europeu) é um erro. E desmantelar o erro de linguagem a partir do interior dessa linguagem, com essa mesma linguagem!

É necessária uma língua (ou um sistema simbólico) totalmente diferente, que seja capaz de se autodestruir de forma iluminante. É matéria para meditação!

A filosofia pesada passa para a poesia quando quer ultrapassar, libertar-se. E em «libertação» há tanta libertação como destruição (assim o quer o verbo lyo-).

«O poema que acaba a escrita»? A dor não tem lugar nem na palavra, nem no som, nem no vazio. É um grito inaudível.

Dante Alighieri é evocado diretamente no seu texto, em versos onde se lê que Dante escreve na sua meninge. Qual é o papel das grandes tradições épicas e poéticas do Ocidente na construção de uma obra que pretende decretar o fim da própria poesia?

Dante foi uma iluminação memorável e chocante. Aos 20 anos sabia terceto a terceto a Divina Comédia. Até imprimi o seu manuscrito a partir da cópia de Boccaccio. E as ilustrações de Botticelli do Vaticano (BAV, Reg. Lat. 1896, p. A). Foi uma bela obsessão. Tem também biografia! E Dante sabia de um saber abissal. É um modelo.

O papel (se o houver) das tradições poéticas ocidentais na edificação de uma obra que decreta o fim da própria poesia, não sei qual é.

Bloco III — Cosmologia, Laniakea e a escala monumental

A sua obra poética abrange projetos de proporções gigantescas, como a série dedicada a Laniakea e a trilogia A Estrela do Éon. Por que razão a sua poesia necessita de escalar até dimensões cosmológicas e utilizar conceitos como quiliocosmos e Laniakea?

Laniakea (com o título Eu acendi o fósforo que incendeia Laniakea), em 100 volumes, seguida de 50 volumes intitulados Autografia obscura, significa uma obra.

A Estrela do Éon compõe-se de: O Pilar do verso (100 volumes), Haverá quiliverso (100 volumes), O Verso negro (43 volumes); tem 24 265 poemas.

A Estrela do Éon tem 24 265 poemas, ou seja, um poema para cada dia da vida da Ângela. Quis escrever à Ângela um poema para cada dia da sua vida.

Na Primeira elegia, fala-se de um desejo de «fazer crescer a árvore entre o céu e a terra para verdejar toda a Laniakea». A poesia é, para si, um ato de regeneração cósmica ou um testemunho do colapso do universo?

A poesia não é nem ato de regeneração cósmica, nem testemunho do colapso do universo. O homem é pequeno, não sabe nada. O universo não sabe dele nem se importaria com ele. O homem é um triste acaso que nem começou a existir.

Termos neológicos ou raros como nictofania sobressaem no texto. Como encara a criação e expansão do vocabulário no processo de levar a língua romena (e as suas traduções) ao limite do indizível?

Falando de termos de língua (neologizei mal), confesso que eles são como um enigma obscuro, com cifra e segredo. Algumas palavras não existem e não exprimem nada, mas exprimiriam tudo.

No que diz respeito à língua romena, posso dizer algo chocante. Mas eu sei do que falo. Sou filólogo «de ofício», sei algum sânscrito, grego, latim, etc. Tenho lacunas na língua nostrática e indo-europeia.

A língua romena, tal como o português, o espanhol, o francês, o italiano, o alemão, o inglês, etc., é uma língua universal. Todas as línguas provêm de uma língua universal.

Por enquanto, línguas de escravos, de homens da caverna, de caídos.

O eixo do tempo cronogenético (descrito por Gustave Guillaume) e o ritual gramatical do sânscrito (descrito por Renou) com o ritualismo dos functores kāraka são de mentes de sujeitos causais. Seres da doação. Seres da queda no tempo.

O homem tem de se libertar primeiro da linguagem na qual morre ritualmente. Pobre. No vazio.

Bloco IV — O amor, Ângela e a soberania feminina

A dedicação do livro a Ângela e a sua constante presença ao longo de toda a obra dão-lhe o estatuto de figura central, descrita por vezes como «rainha da morte» ou dona da «soberania». Qual é o papel da figura amada neste espaço dominado pelo vácuo e pela abolição?

Dominação do vazio e da abolição. Sim. Só o amor pode ser uma superação mental da morte. Em romeno, iubire provém de jubere, que significa também atravessar. Está na Bíblia, algures, e escrevi algo sobre jubere.

À Ângela escrevi também As Supremas da Ângela (antes de escrever A Estrela do Éon).

O livro (tenho uma mística do Livro, tenho de o reconhecer) compõe-se de 365 páginas de 24 versos cada e a folha 365 com 6 versos. Cada verso é cortado pelos outros e multiplica-se exatamente segundo o modelo genial de Michaux, Cem mil milhões de poemas.

As Supremas, lidas ao contrário por hora, significariam 10 000 biliões de biliões de biliões de biliões de biliões de anos de leitura do Livro. Já não haveria nem universo. Nem quiliocosmos.

Enquanto todo o cosmos e o texto se desfazem em cinza e vácuo, a rosa na mão de Ângela permanece intocada. O amor é a única entidade ontológica capaz de resistir à desintegração total do ser?

Agora, vejo a rosa na mão da Ângela. A rosa é realíssima.

Confesso-vos algo impublicável (porque não me interessa o «efeito» público): levo à Ângela — onde ela se encontra e existe — 10 rosas vermelhas, de três em três dias. Este «10» é o número-rei de Angelus Silesius.

Na Sétima elegia, expressa a intenção de reescrever as «supremas infinitas do livro» com a mão de Ângela na sua. Como se dá a transição do sofrimento individual da perda para uma experiência de redenção estética e espiritual através da escrita a dois?

Sim, escreveria as supremas do Livro com a sua mão, da mais pura das criaturas.

Esta redenção é palavra ritual abissal. Vem toda do verbo lyo-. Jesus, se me é permitido, é um redentor, ele está em estado de lytros. A Bíblia é uma cibernética do escravo, num grego genial que tem de ser superado.

Bloco V — A condição do poeta e a redenção pelo vazio

O eu poético surge no livro sob variadas personas: o «escriba cego», o «palhaço errante» ou o «poeta negro». Como define a figura e a função do poeta na sociedade atual — um sobrevivente, um sacrificado ou um simples espectro? Existe na sua poética uma dimensão ritualística do sacrifício como condição necessária para a libertação do espírito?

O escriba cego, o palhaço errante, o poeta negro — autorretrato niilista de um perdedor. Os governantes do planeta não leem poemas. É difícil viver um poema genial das Elegias de Duíno.

Poeta: sobrevivente, sacrificado, espectro? O poeta tem de se tornar sacrificador, se quiser sobreviver vivendo como simples espectro passageiro.

Eminescu dizia de si próprio, depois de 1884, que é ein aufgegebener Mensch, «um homem sacrificado», um homem abandonado. Ou seja, fora da doação. Em ablação.

A Décima elegia encerra com o compromisso de «fechar o livro para que voes» e a promessa de permanecer «sozinho ao teu lado». Depois de concluir estas dez elegias e de levar o leitor ao limite do abismo, que silêncio ou que espaço de escuta espera que reste no espírito de quem lê a sua obra?

«fecharei o livro»
para que voes
com todas as do mundo
e para que cantes de novo
como nem buda cantou
nenhuma surra

«Sozinho ao lado» da criatura amada significa uma tentativa terrível de drogar a minha mente.

Se levei o leitor até à margem do abismo, ele ou grita — ou se cala. Teria de aprender com os cegos de Hakuin, não comigo. Os cegos de Hakuin que caminham sob a ponte por cima do precipício.

A Coragem de Te Amar: a história de duas pessoas que aprenderam a cuidar de todos menos de si próprias

2 Setembro, 2026

Desta Alice — um mosaico de vinte pessoas e uma vida inteira por trás delas

2 Setembro, 2026